Diz o ministro da economia que vamos ter nos próximos anos mais recursos do que alguma vez tivemos na nossa história democrática. A corroborar esta afirmação relembro o que afirmou a ministra Mariana Vieira da Silva quando diz que vamos ter margem financeira como nunca tivemos. Considerando que tudo isto seja verdadeiro significa o quê? Que não vamos ter aumento de impostos, que não vamos ter de novo austeridade? É que logo a seguir vem-me à memoria as palavras do secretário dos assuntos fiscais de que ainda iriamos ter saudades da carga fiscal da troika ou das palavras do primeiro ministro ao afirmar que vamos ter uma retração brutal no produto interno bruto na ordem dos 7%.

São na verdade muitos milhões que estão anunciados, parte deles a fundo perdido, mas alguém acredita que esses milhões não terão de ser pagos de alguma maneira? Sendo a Comissão Europeia financiada pelas Estados membros, não seremos todos nós a pagar essa dádiva na forma de impostos nacionais ou europeus? Mas há coisas que não custam dinheiro e que podem ser aplicadas: estudar, pensar e implementar medidas que possam recuperar a economia. Se não houver ética, bom senso e uma gestão criteriosa desses recursos iremos sair desta fase ainda mais pobres. Não podemos usar o dinheiro para distribuir por tudo e todos sem que isso crie valor acrescentado à nossa economia.

A experiência sobre programas de recuperação económica apoiados com subsídios não é de toda animadora, se recuarmos algumas décadas. A burocracia europeia irá definir quais são os sectores económicos de futuro. Aqueles que são merecedores de subsídios e quais os condenados, sem muitas preocupações de olhar para a expressividade de cada país. A somar a isso iremos ver a burocracia nacional a implementar e a definir quais os adequados para Portugal. Depois teremos as empresas do regime acolitadas por grandes escritórios de advogados a sorver a parte de leão dos subsídios. Tudo isto financiado com impostos ou com dívida que vamos pagar no futuro.

Foi publicado o programa de estabilidade e o governo prepara-se para apresentar na Assembleia o orçamento complementar. Li as medias ali elencadas e a precessão que se tem ao ler é que parece uma lista de ideias e objectivos limitados no tempo, uma distribuição para clientelas para agradar a “gregos e troianos” onde ressalta o objectivo de manter todos satisfeitos. Parece prevalecer mais os objectivos políticos do que uma visão económica abrangente.

É por isso que não partilho do entusiasmo que a proposta da Comissão Europeia gerou. É verdade que pode chegar muito dinheiro a Portugal, mas conhecendo o nosso historial, temo que muitos desses milhões sejam absorvidos na máquina burocrática do estado, dos grandes escritórios de advogados ou em projectos melómanos que não acrescentam valor.

Parafraseando a metáfora do governo sombra, há um buraco enorme e vem da Europa um camião enorme de terra(dinheiro) para o tapar, mas o buraco que temos na União Europeia terá de ser tapado com terra de buracos que serão feitos em terrenos da própria União.

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